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Coronavírus

Um ano após primeiro caso de Covid-19, RS vive pior momento da pandemia

Taxa de ocupação de leitos segue acima de 100% no Estado

Um ano após primeiro caso de Covid-19, RS vive pior momento da pandemia
RS registrou 275 óbitos pela doença nesta terça-feira | Foto: Mauro Schaefer/CP
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Um ano após registrar o primeiro caso de infecção pelo coronavírus, registrado em 10 de março do ano passado, o Rio Grande do Sul enfrenta o pior momento da pandemia, com esgotamento do sistema de saúde. Desde a confirmação do diagnóstico positivo para a Covid-19 de um homem de 60 anos, de Campo Bom, que teve histórico de viagem para Milão, na Itália, entre 16 e 23 de fevereiro, o Estado contabiliza mais de 13,5 mil mortes em decorrência da doença. Em meio à escalada da doença no ano passado, o Estado conseguiu dobrar o número de leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTI), disponibilizando mais de 2,1 mil unidades.

Mesmo com estrutura reforçada, o cenário atual é o pior desde o início da pandemia: hospitais lotados, falta de leitos e crescimento de internações e de óbitos. Especialistas apontam erros e acertos no combate à Covid-19, mas reforçam que falta de testagem em massa, a polarização entre economia e saúde pública, o relaxamento das medidas de isolamento social e o surgimento de novas cepas do vírus estão na raiz do aumento acentuado das internações e de mortes este ano. Por outro lado, o governo gaúcho enumera uma série de medidas adotadas para conter o avanço da Covid-19, como o sistema de Distanciamento Controlado e a reestruturação da rede assistencial de saúde.

Com 691,4 mil casos confirmados para a Covid-19, nos 497 municípios gaúchos, o RS viu a doença avançar desde 1 de dezembro, quando a Secretaria Estadual da Saúde (SES) contabilizava 7.149 vítimas fatais por conta da Covid-19. Em pouco mais de três meses, o número de óbitos aumentou 80,2%, chegando a 13,5 mil. A titular da SES, Arita Bergmann, explica que foi um ano de muitos desafios no enfrentamento ‘de algo desconhecido’, mas destaca que o governo conta com planejamento e plano de contingência para encarar esse momento crítico. Entre as medidas adotadas, ela aponta a elaboração do modelo de distanciamento, ‘com base técnica e científica’. “Conseguimos uma proposta concreta onde, ao mesmo tempo que se coloca a preservação da vida, se permite, conforme a graduação das bandeiras, ir conciliando com a economia”, afirma.

Questionado sobre erros e acertos nas políticas de combate ao vírus, Arita ressalta que é ‘prematuro’ dizer o que deu errado, mas observa que outros estados brasileiros, como Santa Catarina, Paraná, São Paulo, estão passando por dificuldades para conter a propagação do vírus. “Tem essa nova variante (P.1) que está assolando o país, muito mais agressiva, com maior transmissão, agravo de saúde maior e com número de mortes muito maior. Então tem aumento de internações em leitos clínicos”, assinala. Conforme Arita, em janeiro, a média de ocupação de leitos clínicos era de 20%. Hoje está em 80%. Na avaliação da secretária, vários fatores contribuíram para a situação crítica do RS.

Ela reforça que a explosão de casos positivos, especialmente em fevereiro, tem relação com férias, aglomerações, festas clandestinas, não adoção dos protocolos obrigatórios e do uso de máscaras. “Parece que algumas pessoas não têm medo da Covid-19”, alerta, acrescentando que atualmente existem 7.186 leitos clínicos que são só para casos relacionados à doença. “Leitos de UTI tínhamos em média 400 leitos vagos. Hoje não temos nenhum, porque a taxa de ocupação em média tem sido de 100%. Tivemos que adotar o plano de contingência, a fase 4, que é quando os leitos de UTI estão ocupados acima de 90% e pedimos para cancelar todas as cirurgias eletivas, usar blocos cirúrgicos, salas de recuperação, para também receber pacientes Covid-19”.

Especialistas alertam para importância da vacinação e restrição da circulação de pessoas

Coordenador da Epicovid-19, maior estudo epidemiológico sobre coronavírus no Brasil, o epidemiologista Pedro Hallal avalia que o combate à Covid-19 no RS tem erros e acertos. Ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Hallal explica que a adesão às medidas de distanciamento, no começo da pandemia, e a estruturação da rede de saúde, foram os grandes acertos. “Sempre que a gente fazia as nossas pesquisas, a gente identificava o RS como um dos lugares que mais se fazia distanciamento social. Também acho que foi um acerto no começo da pandemia a propositura do modelo de distanciamento controlado, que pelo menos nos primeiros meses funcionou muito bem”, assinala.

Hallal frisa que o RS foi um dos locais em que o comitê científico criado pelo governo gaúcho ‘teve muita voz’ sobre a pandemia. E destaca ainda a existência do Epicovid. “É o maior estudo epidemiológico sobre coronavírus, e aqui no RS tem um braço muito forte com 9 fases já realizadas. O especialista aponta alguns erros durante o processo. “Nunca teve uma política de testagem em larga escala no estado para identificar precocemente os casos e evitar disseminação do vírus. Nunca houve uma política de rastreamento de contato efetiva para identificar os contactantes dos casos e também isolá-los e evitar que eles transmitam a doença”, avalia.

De acordo com Hallal, a polarização entre economia e saúde pública também pesou para o agravamento da pandemia. “Isso começou a se acentuar no meio do ano passado e atingiu seu ápice ao redor da época das eleições. Isso atrapalhou muito o andamento do processo e fez com que a coisa descontrolasse mais em direção ao final do ano no Estado”, assinala. Sobre o aumento expressivo de novos casos e de óbitos, ele reforça que isso ocorreu em outros países. “A Covid-19 é uma doença cujo crescimento às vezes se dá numa progressão aritmética e quando chega o momento que chega a progressão geométrica, ela explode, que é o que está acontecendo no RS”, alerta. “Hoje estamos no fundo do poço”, completa.

Na avaliação do epidemiologista, o crescimento dos casos se deve a uma série de fatores. “É uma combinação da nova variante circulando, que é mais transmissível, do relaxamento das medidas de distanciamento a partir especialmente de outubro, com processo eleitoral, depois festas de final de ano, feriados, verão e carnaval. E aí houve descontrole muito grande com aumento da circulação”, salienta. Ele frisa que a ‘história da pandemia é construída a cada dia’, por isso a necessidade de acelerar a vacinação. “Se a gente não acelerar a vacinação e não reduzir a circulação do vírus, a situação pode piorar muito. Temos que lembrar que Epicovid mostrou que 10% da população gaúcha já teve contato com esse vírus, ou seja, 90% ainda está suscetível. Então se nada for feito a situação pode se agravar muito”, conclui.

Coordenadora do Núcleo Hospitalar de Epidemiologia do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), Ivana Varella explica que lidar com um vírus ‘novo’ e ‘desconhecido’ impõe uma série de desafios. Com experiência de quem acompanhou o trabalho de vigilância hospitalar à época da Influenza H1N1, a epidemiologista destaca que a Covid-19 exigiu conduta de distanciamento social, uso de máscaras e higienização das mãos – que são medidas não farmacológicas – por tempo muito prolongado, provocando relaxamento da população. “Enquanto as pessoas não vivenciam a tragédia que foi para determinadas pessoas que foram afetadas por essa doença, fica difícil delas acreditarem o quanto é importante manterem essas medidas não farmacológicas enquanto não forem vacinadas”, explica.

Além de criticar a lentidão no processo de vacinação, Ivana observa que as equipes de saúde já estavam preparadas para aumento de internações após verificar vários episódios de aglomerações no Estado, como as festas clandestinas, e a falta de comprometimento de parte da população que ‘está banalizando uma situação crítica’. “Especialistas já tinham alertado que, quanto mais tempo o vírus fica circulando, isso propicia o aparecimento dessas mutações”, reforça. O aumento do contágio já reflete nos hospitais. “Só no final de semana, no Hospital Nossa Senhora da Conceição, identificamos 30 pacientes que evoluíram para óbito. Isso não aconteceu em nenhum momento mais crítico da pandemia no ano passado, nem em julho”, alerta.

O esgotamento da rede hospitalar é outro problema recorrente, com pacientes à espera de leitos de UTI. “Já estamos vivenciando um colapso. A partir de agora o risco e a preocupação maior é que, se elas não forem atendidas precocemente, elas vão conseguir um leito de internação em estágio avançado da doença. E não vai conseguir ter toda estrutura de atendimento de uma terapia intensiva”, aponta. “Todo aparato tecnológico não se consegue criar de um dia para outro, então todas essas estruturas já estão no seu limite. Não temos mais recursos para ficar aumentando indefinidamente os leitos de UTI, isso tem limite”, completa.
FONTE/CRÉDITOS: Correio do Povo / Felipe Samuel
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